Receita de Mulher

Receita de Mulher lyrics

Duration5:21
Original languagePortuguese
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PT
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As muito feias que me perdoem Mas beleza é fundamental É preciso que haja qualquer coisa de flor em tudo isso Qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture Em tudo isso (ou então que a mulher se socialize) (Elegantemente em azul, como na República Popular Chinesa) Não há meio-termo possível É preciso que tudo isso seja belo É preciso que súbito tenha-se a impressão De ver uma garça apenas pousada e que um rosto Adquira de vez em quando essa cor só encontrável No terceiro minuto da aurora É preciso que tudo isso seja sem ser Mas que se reflita e desabroche no olhar dos homens É preciso, é absolutamente preciso Que seja tudo belo e inesperado É preciso que umas pálpebras cerradas lembrem Um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços Alguma coisa além da carne: Que se os toque Como no âmbar de uma tarde Ah, deixai-me dizer-vos que é preciso Que a mulher que ali está como a Corolla ante o pássaro Seja bela ou tenha pelo menos um rosto Que lembre um templo e seja leve como um resto de nuvem Mas que seja uma nuvem com olhos e nádegas Nádegas é importantíssimo Olhos então nem se fala, que olhe com certa maldade inocente Uma boca fresca (nunca úmida) é também de extrema pertinência É preciso que as extremidades sejam magras Que uns ossos despontem, sobretudo a rótula No cruzar das pernas, e as pontas pélvicas No enlaçar de uma cintura semovente Gravíssimo é porém o problema das saboneteiras Uma mulher sem saboneteiras é como um rio sem pontes Indispensável Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida A mulher se alteie em cálice, e que seus seios Sejam uma expressão greco-romana Mas que gótica ou barroca e possam iluminar o escuro Com uma capacidade mínima de cinco velas Sobremodo pertinaz é estarem a caveira E a coluna vertebral levemente à mostra E que exista um grande latifúndio dorsal Os membros que terminem como hastes Mas que haja um certo volume de coxas E que elas sejam lisas, lisas como a pétala E cobertas de suavíssima penugem No entanto, sensível à carícia em sentido contrário É aconselhável na axila uma doce relva Com aroma próprio apenas sensível (Um mínimo de produtos farmacêuticos) Preferíveis sem dúvida os pescoços longos De forma que a cabeça dê por vezes a impressão De nada ter a ver com o corpo E a mulher não lembre flores sem mistério Pés e mãos devem conter elementos góticos discretos A pele deve ser fresca nas mãos, nos braços No dorso, e na face Mas que as concavidades e reentrâncias Tenham uma temperatura nunca inferior a 37 graus centígrados Podendo eventualmente provocar queimaduras do primeiro grau Os olhos, que sejam de preferência grandes E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra E que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão Que é preciso ultrapassar Que a mulher seja em princípio alta Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental Dos altos píncaros Ah, que a mulher dê sempre a impressão De que se fechar os olhos, ao abri-los Ela não estará mais presente com seu sorriso e suas tramas Que ela surja, não venha, parta, não vá E que possua uma certa capacidade de emudecer Subitamente e nos fazer beber o fel da dúvida Oh, sobretudo que ela não perca nunca Não importa em que mundo, não importa em que circunstâncias A sua infinita volubilidade de pássaro E que acariciada no fundo de si mesma Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave E que exale sempre o impossível perfume E destile sempre o embriagante mel E cante sempre o inaudível canto da sua combustão E não deixe de ser nunca a eterna dançarina do efêmero E em sua incalculável imperfeição Constitua a coisa mais bela e mais perfeita De toda a criação inumerável