Árvore

Árvore lyrics

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Eu sou abrigo pro mendigo pela madrugada E não entendo como, com tanto prédio em volta, ele não tem morada Sou usada de declaração de amor pra namorada Eu vivo tão solitária, naufragada nessa calçada Pro indígena eu sou sagrada Eu que inspirei o nome da sua pátria amada Eu nasci tão pequena e posso ficar tão pesada Mas na sua consciência eu não peso nada (não) Já fui refúgio para os quilombolas Sob meus pés ancestrais contavam histórias Jogavam capoeira de Angola Do Cacique de Ramos, fui o começo da história Eu que inspirei Mestre Cartola a fundar uma escola E quantas vezes fui usada para ser instrumento Eu sou o corpo do tambor, o bojo da viola Eu sou a casa do macaco, a roda da carroça Sou o palco do sabiá quando ele cantarola Fui do pobre o barraco e o trono pros reis Fui a flecha e o arco e também fui o barco do português E, quando o inverno chegou, sucumbi ao machado Eu que mantive aceso o fogo para esquentar vocês Foi embaixo de mim que Buda encontrou a luz Isaac Newton viu a maçã caindo no chão Mas foi com pedaço de mim que mataram Jesus A cruz e o cabo do martelo que pregou suas mãos Sou uma árvore na cidade grande No meio do mármore, a saudade é grande Se eu tivesse pernas eu ia para longe Para onde pudesse ver o horizonte Com as minhas irmãs, nós somos as guardiãs Enquanto o mundo se asfalta Penso se eles vão sentir minha falta amanhã Antigamente na minha frente isso era tudo verde Perfurando o concreto vou matando minha sede Que desconforto, vou crescendo com o tronco torto Me pergunto o porquê o homem fez tanta parede se sem mim ele já tava morto Eu sou a razão dele ter ar pelo nariz E ao invés de serem gentis, cortam minha raiz, bicho porco Virei latrina do cachorro, socorro Estou cheia de cicatriz, tatuagens pelo corpo Fico imóvel respirando a fumaça do automóvel Sou a mãe do oxigênio, eu mereço o prêmio Nobel O cupim faz de mim sua casa e me deixa oca Eu já fui tantas, hoje sou tão poucas Eu queria ter pernas, também ter bocas Para fugir para longe das pessoas E poder falar por nós todas Vi um poeta escrevendo na folha do papel de um caderno feito das minhas folhas Uma hora ele parece me escutar e me olha Parece sentir que tenho sede, então me molha Vem se refugiar em minhas sombras Quando o mundo esquentar demais, o que te sobra? Eu serei sua última escolha E ele me pede para eu contar a minha história Escreve no meu tronco uma ressalva Plante uma árvore, escreva um poema Assim o mundo se oxigena Arte salva, ar te salva E hoje tenho esses dizeres escritos em mim À deriva na cidade, sou uma poesia concreta Tem mais de 100 anos que vivo assim Sou símbolo de resistência que nem os versos desse poeta Sou uma árvore na cidade grande No meio do mármore, a saudade é grande Se eu tivesse pernas eu ia para longe Para onde pudesse ver o horizonte Com as minhas irmãs, nós somos as guardiãs Enquanto o mundo se asfalta Penso se eles vão sentir minha falta amanhã (hein?)