Visão Orbital

Visão Orbital lyrics

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A Terra rodava em seu manto azulado e ferido Sob astros remotos num fulgor enfraquecido Cidades ardiam em filamentos de aflição E santos humildes sumiam na combustão Aqui a quietude possui gravidade e rigor Comprime cada rebite, cada placa, cada sensor E todo alento lançado ao vazio sideral Retorna semelhante a um chamado fenomenal A central envia cálculos com exatidão habitual Porém ninguém foi preparado para esse espaço abissal Já não sei se tenho saudade da Terra ou do seu rumor doentio Das mesas iluminadas, das avenidas, das chuvas sobre o Brasil Pois o universo prossegue em majestade absoluta E minhas preces se dispersam numa poeira diminuta Noventa minutos apenas, e outra alvorada surgiu Ouro vivo derramando-se sobre a trava hostil Logo a noite reaparece em retorno circular Qual lembrança persistente que se recusa a cessar Vi tormentas sobre os mares em filigranas de eletricidade E toda obra da humanidade pareceu capricho da temporalidade Recordei arraiais remotos, ruelas após o aguaceiro brutal Curioso como o mais singelo permanece quase imortal Já não sei se tenho saudade da Terra ou do seu rumor doentio Das mesas iluminadas, das avenidas, das chuvas sobre o Brasil Pois o universo prossegue em majestade ancestral E cada pensamento humano parece quase irreal Disse um velho astronauta em reflexão singular Quanto mais olhar o cosmo, mais difícil é regressar Há ocasiões em que parece um fantasma observador Vendo séculos deslizarem sem qualquer espectador Então repouso a fronte naquela cápsula glacial Tentando compreender a origem de nosso destino mortal Já não sei se o amor possui substância ou simples função vital Uma defesa construída contra a treva abissal Porém alguém canta distante numa janela provincial Sem saber que as estrelas vigiam seu recital A estação segue seu curso, o planeta mantém seu giro Os celulares abaixo berram frequências num elétrico suspiro Bilhões adormecidos em repouso matinal Sem ouvir a vasta mudez do firmamento imemorial