Senhora da Madrugada

Senhora da Madrugada lyrics

Original languagePortuguese
Views1
Lyrics coordinates

Original lyrics

PT
Translation not available yet. Showing the original lyrics.
18
Na infância, havia ratos sob a tábua carcomida E um pai de hálito ardente devastando-lhe a vida Cada prato era um litígio, cada noite uma cilada A casa, um mausoléu de infância violentada A mãe, entre hematomas e rosários de fadiga Costurava o próprio pranto na penumbra inimiga E a menina, muito cedo, aprendeu sem alegoria Que há criaturas sorrindo com punhais de cortesia Vieram homens viscosos de gravata e devoção Com moedas nos bolsos e enxôfre no coração Tomaram-lhe a adolescência num quarto isolado Onde até Cristo na parede parecia estar vendado Senhora da madrugada Hoje ela risca fumaça na esquina do cemitério E transforma desespero num perfume grave e etéreo Seu vestido tem a noite das mulheres sem perdão Mas há lírios invisíveis florescendo em sua mão Fugiu por vielas turvas sob garoas de ferragem Dormindo entre cães magros e jornais de estiagem Na sarjeta repartia pão mofado e cobertores Mesmo tendo nos próprios ossos um deserto de dores Havia mendigos cegos que chamavam seu nome E crianças sem sapato, raquíticas da mesma fome Ela dava o que não tinha, cigarro, abraço, migalha Como santa clandestina sob a fuligem da batalha Às vezes ria sozinha nos viadutos da cidade Com batom barato e frio disfarçando a tempestade Mas depois, diante da Lua e das vitrines apagadas Chorava como quem guarda catedrais abandonadas Senhora da madrugada Hoje ela risca fumaça na esquina do cemitério E transforma desespero num perfume grave e etéreo Seu vestido tem a noite das mulheres sem perdão Mas há lírios invisíveis florescendo em sua mão Numa madrugada ríspida de junho sem clemência Quatro homens a cercaram com navalhas e indigência O asfalto bebeu seu sangue com garrafas partidas E a aurora nasceu doente sobre as avenidas Agora vem nos terreiros entre rosas e aguardente Com gargalhada de brasa e olhar antigo, penitente Ampara moças feridas por amantes e violência E ensina às almas partidas o difícil da existência Quando baixa, até o luar modifica a travessia Pois existe nela um resto de miséria e poesia E quem sente sua presença junto às velas da gira Ouve as ruas soluçando na chegada da pomba-gira Senhora da madrugada Hoje ela risca fumaça na esquina do cemitério E transforma desespero num perfume grave e etéreo Seu vestido tem a noite das mulheres sem perdão Mas há lírios invisíveis florescendo em sua mão