Pai Velho

Pai Velho lyrics

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Pai Velho conhece a corredeira da tarde Pelo gosto que fica no fundo da cuia Pela cinza que mancha a cambraia Pelo estalo seco do galho de arruda Veio de longe, de outras distâncias Que não cabem em légua ou itinerário Veio da labuta e do pelourinho De febres, senzalas, açoite e inventário Quando um homem custava bem menos Que a prataria de algum fazendeiro Pai Velho guardava outros saberes Sem escritura, brasão ou dinheiro Pai Velho sabe coisas sem gramática Sabe o quebranto pela sobrancelha A mágoa pela maneira de sentar A soberba quando alguém se ajoelha Sabe quando a pessoa traz consigo Um caso difícil de explicar Sabe aquilo que ela mesma sente Mas ainda não consegue contar Pai Velho, bença, meu Pai Vélho Firma a pemba no terreiro Tem demanda que chega de fraque Mas sai descalça no cruzeiro Pai Velho, bença, meu Pai Velho Café amargo no alguidar Quem aprendeu com cento e tantos anos Não precisa se apressar No pito, fumo de rolo picado No bolso, guiné e patuá Um vintém que ninguém reconhece Um santinho gasto e fubá Chamaram-no Joaquim na fazenda Talvez Francisco, talvez Benedito O sobrenome ficou com outra família Como ficavam o engenho e o distrito Mas ele trouxe o que não constava Na escritura do tabelião O jeito banto de benzer a água Um canto aprendido antes do porão Trouxe a paciência dos sobreviventes Uma sabedoria contra o patrão Coisas que não cabiam nos papéis Nem se transmitiam por procuração Pai Velho não fala bonito Boniteza não pagou cativeiro Diz meia dúzia de palavras erradas Cutuca a brasa com o cachimbo inteiro E aquilo que parecia enorme Pesado, difícil, traiçoeiro Depois de poucas palavras suas Fica do tamanho de um candeeiro Pai Velho, bença, meu Pai Vélho Firma a pemba no terreiro Tem demanda que chega de fraque Mas sai descalça no cruzeiro Pai Velho, bença, meu Pai Velho Café amargo no alguidar Quem aprendeu com cento e tantos anos Não precisa se apressar Conheceu sinhá, feitor e capitão Cana-de-açúcar, tronco e gargalheira Por isso escuta certas valentias Com piedade quase zombeteira Quando alguém pergunta pelo destino Ele ajeita o banco e acende o pito Meu fio, destino é palavra de branco Pra pôr filosofia no conflito Depois benze com ramo de guiné Bate a bengala três vezes no terreiro Pede café sem açúcar, bem pequeno E chama o sofrimento de passageiro Na despedida não dá eternidade Nem faz comércio com felicidade Dá uma receita de erva e juízo Duas risadas e sobriedade E volta devagar para Aruanda Com sua velha camisa de algodão Levando no embornal quatro séculos Que nunca couberam numa certidão Pai Velho, bença, meu Pai Vélho Firma a pemba no terreiro Tem demanda que chega de fraque Mas sai descalça no cruzeiro Adorei as Almas, meu Pai Velho Saravá, Pai Velho, Saravá Saravá sua sabedoria Adorei as Almas, saravá