Os Yorubás

Os Yorubás lyrics

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Antes do ferro aprender seu idioma nas fornalhas Antes de reis levantarem suas soberbas muralhas Já havia antigas vozes sob o céu da África ardente E tambores traduzindo o pensamento daquela gente Não eram terras sem rumo, como mentiram impérios Para vestir saque e tráfico com discursos mais etéreos Havia cidades, comércio, astronomia e fundamento E anciãos guardando histórias mais velhas que o esquecimento Em Ifé, onde o princípio recebia nome e canto O barro não era apenas barro, mas carregava o primeiro espanto Oduduá vinha em fala, os Orixás em permanência E existir significava pertencer à ancestral consciência Cada criança aprendia que palavra tem presença Que o morto muda de casa mas não perde a pertença E havia respeito ao ancião, arquivo da história Pois quem abandona os antigos desaprende a trajetória Ô povo iorubá, tua memória venceu o mar Nem aço, febre ou corrente conseguiram te apagar Teu tambor segue chamando o que o tempo não venceu Feito brasa escondida no carvão que não morreu Ferreiros batiam ferro sob a vigília de Ogum Fazendo enxadas, ferramentas e coragem em comum Mercadores cruzavam rotas com sal, noz-de-cola e tecido E os mercados eram mares de um continente erguido Oió cresceu entre acordos, cavalarias e poder Reis sabendo que governar é também se dissolver Porque impérios muito altos escutam tarde a sorte Todo domínio carrega já o germe da morte Vieram depois os navios, ventre escuro da ganância Transformando corpos vivos em mercadoria e distância E o oceano aprendeu nomes que ninguém mais repetia Mães levadas do seu povo, filhos sem genealogia Mas certos legados passam por baixo da destruição Sobrevivem em cadência, rito, segredo e entonação Porque memória profunda não se arranca inteiramente Fica ardendo sob cinzas, paciente e persistente Ô povo iorubá, tua memória venceu o mar Nem aço, febre ou corrente conseguiram te apagar Teu tambor segue chamando o que o tempo não venceu Feito brasa escondida no carvão que não morreu No Brasil, entre engenhos e o peso da escravidão Continuaram existindo os braços da produção Oxum permaneceu em pranto, Ogum em corpos feridos Iansã nos vendavais dos revoltosos esquecidos Mulheres guardaram mundos nos grilhões das cozinhas Homens salvaram saberes entre rezas pequeninas Pois às vezes resistir não exige espada ou clarim É impedir que o invasor determine o próprio fim E quando um atabaque rompe a noite num terreiro Há qualquer coisa antiquíssima chegando por inteiro Não somente fé ou rito, nem apenas devoção Um povo inteiro dizendo que ainda pulsa o coração Ô povo iorubá, tua memória venceu o mar Nem aço, febre ou corrente conseguiram te apagar Teu tambor segue chamando o que o tempo não venceu Feito brasa escondida no carvão que não morreu