O Conselheiro

O Conselheiro lyrics

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Quixeramobim lhe deu feira, balcão e caderno Seca, couro e sol gravando um aprendizado eterno Vicente Maciel lhe entregou conta, tinta e escritura Maria Joaquina lhe deixou a primeira ternura Fez-se caixeiro, professor, escrivão de confiança Toda assinatura pedia consciência e esperança Sonhava vestir batina, servir diante do altar Mas o destino guardava outro modo de rezar Brasilina entrou em casa prometendo companhia O café nas madrugadas perfumava cada dia Mas veio a fuga com um soldado, veio a honra dilacerada E a porta ficou aberta para uma vida mudada Largou móveis, nome e posse sem querer compensação Escolheu a poeira das léguas como única direção Acusaram-no de crimes que jamais cometeu A prisão caiu por terra quando a verdade enfim apareceu Antônio Se a justiça tarda, o tempo guarda a memória Nem todo juízo consegue vencer a verdade Quem oferece o próprio corpo escreve outra história Mesmo cercado por farda, canhão e autoridade Construía igreja esquecida, levantava cemitério Onde havia ruína antiga devolvia outro critério Açude, muro e capela renasciam por sua mão Como se pedra e argamassa conhecessem gratidão Negros livres, retirantes, gente sem nenhum favor Encontravam acolhida sem pergunta ou cobrador Cada mesa repartida desfazia antigo espinho Porque o pão multiplicava quando dividido em caminho Belo Monte abriu as portas para quem perdeu tudo e ficou sem chão Fez da enxada uma resposta contra toda humilhação Barro, couro, milho e gado sustentavam o lugar Sem ajoelhar a própria vida para o mando secular Chamaram fé de ameaça nos jornais da capital Inventaram conspiração para justificar o mal Veio a primeira investida, veio a segunda também A terceira voltou vencida sem vencer ninguém Antônio Conselheiro Se a justiça tarda, o tempo guarda a memória Nem todo juízo consegue vencer a verdade Quem oferece o próprio corpo escreve outra história Mesmo cercado por farda, canhão e autoridade Na quarta desceu o chumbo acompanhado da fumaça Transformando cada rua numa imensa carcaça O sertão ouviu a baioneta conversar com a União Enquanto Belo Monte recusava rendição A doença lhe tomou o fôlego antes do combate final Sem lhe arrancar do semblante a firmeza espiritual Partiu antes da derrota consumir aquele lugarejo destroçado Sem assistir ao incêndio que fez cinzas do povoado Nem a morte satisfez o delírio vencedor Violaram-lhe o descanso com terrível horror Levaram sua cabeça para um falso parecer Chamando ciência aquilo que nasceu do desmerecer Canudos permanece muito além da geografia Cada pedra ainda conserva parte daquela agonia Antônio Conselheiro vive onde existir compaixão E onde a dignidade fale mais alto que a opressão Ah, Antônio Se a justiça tarda, o tempo guarda a memória Nem todo juízo consegue vencer a verdade Quem oferece o próprio corpo escreve outra história Mesmo cercado por farda, canhão e autoridade