O Assobio Preso no Grotão

O Assobio Preso no Grotão lyrics

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No espigão de São Roque, perto dum açude bilioso Havia um menino magro de riso pouco e silêncio copioso Cuidava da velha porteira entre carrapicho e urtiga Falando com vacas mansas como quem benze fadiga Chamavam ele de Neco, sem pai sabido, sem herança Criado por uma avó com pulmão de tosse e andança Comia broa endurecida, lambia mel de garapa E conhecia os cantos de que cada coruja escapa Quando boiadeiro passava tangendo o pó do caminho O guri abria a porteira num gesto humilde, mansinho Ganhava fumo pros velhos, um queijo, às vezes um cobre E guardava cada agrado igual quem recolhe o que sobre Mas tinha um reparo estranho nas bandas do capoeirão Ao cair das seis da tarde, vinha um tropel sem chão Não de cavalo ou boiada, coisa pior, mais antiga Um rumor de casco podre marretando a terra endurecida A avó dizia: Menino, depois da ave-Maria Fecha a tranca ligeiro, nem assunta alguma companhia Há defunto sem reza certa vagando ermo e barreira E morto que perde o rumo volta a bater em porteira Neco ria, porque Infância roceira crê pouco nas rugas do aviso Foi crecendo entre enxurrada, enxada e susto indeciso Até a noite de junho, breu graúdo, anoitecer enfermo Quando ouviu bater na cerca uma aflição sem termo Saiu levando lamparina, o vento batia chato Havia barro mexido e um cheiro de couro ingrato Então surgiram figuras perto do vau do riacho Tropeiros muito antigos, rasgados de tempo e despacho Menino da porteira, quem chamou teu nome ali? Foi boi perdido no escuro ou coisa que nunca vi? Teu assobio ficou preso na garganta do grotão E há ferraduras sem dono rondando tipo assombração Nenhum falava palavra, só apontavam a estrada Como quem busca um vivente pra completar cavalgada E Neco sentiu no peito uma friagem de caverna Dessas que fazem a alma desaprender das perna Na manhã acharam só a porteira escancarada O lampião sem querosene e a terra muito pisada Nem corpo, nem rastro inteiro, só marcas em espiral Feito boiada subindo rumo de coisa infernal Passaram décadas secas, o povo mudou de fala Mas carreiro que atravessa a antiga baixada rala Jura escutar, em madrugadas de estrela grande e aguaceira Um menino pedindo baixo: Abre, abre a porteira E boiadeiro prudente, quando a Lua embranquece o capim Nunca responde esse chamado vindo do rincão sem fim Porque há infâncias que a ceifadora não recolheu por inteira Ficam guardando passagem na eternidade da porteira Menino da porteira, quem chamou teu nome ali? Foi boi perdido no escuro ou coisa que nunca vi? Teu assobio ficou preso na garganta do grotão E há ferraduras sem dono rondando tipo assombração Menino da porteira, quem chamou teu nome ali? Foi boi perdido no escuro ou coisa que nunca vi? Teu assobio ficou preso na garganta do grotão E há ferraduras sem dono rondando tipo assombração