Na Casa de Afonso

Na Casa de Afonso lyrics

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Lá pros cantos de Carrancas Onde o mato embolsa a serra Trabalhavam Beto e Bruninho Na pobreza dura da terra Dois irmãos de mesma venta Mesma fala, mesmo riso Tratadores de cavalo Desde o tempo mais castiço Limpavam sela e ferragem Desembaraço de crineira Conheciam trote e manha De alimária corredêra Foi então que certo inverno Vendo o bolso emagrecido Resolveram numa noite Dar um golpe escondido O patrão chamava Afonso Homem sêco e sorumbático Mastigava carne de bode Feito cão adoentado idiopático Dizem que lá em Carrancas Quando venta na estrada Tem dois cavalos sem cavaleiro Que passam rente da invernada São dos condenados, Beto e Bruninho Sofrendo ainda por erro no caminho Mesmo sendo lá de Minas Desprezava queijo e vinho Preferia sangue grosso Cozinhado num panelinho Pelos ranchos se dizia Com cochicho encabulado Que ele andava madrugada Com semblante transtornado E pedia a Onofre coveiro Lá do campo-santo ermo Certas lidas sem palavra Sob luar doentio e enfermo Beatriz fora esposa dele Mui formosa em mocidade Morrera em febre danada Sem padre nem claridade Desde aquilo o velho Afonso Virou sombra de vivente Com conversa desconjunta E uma fúria permanente Dizem que lá em Carrancas Quando venta na estrada Tem dois cavalos sem cavaleiro Que passam rente da invernada São dos condenados, Beto e Bruninho Sofrendo ainda por erro no caminho Numa sexta de garoa Beto e Bruno foram indo Pé descalço, faca curta Pelo barro se sumindo Invadiram a morada Reviraram cristaleira Vasculharam quarto e sótão Procurando prata e beira Só que ao fundo da cozinha Sob tijolo mal posto Havia escada descendo Pra fundura de desgosto E lá dentro uma candeia Amarelava a negridão Revelando sobre a pedra Restos podres de caixão Bruno teve tremedeira Beto quis sair correndo Quando ouviram lá do alto Ferrolho velho gemendo Dizem que lá em Carrancas Quando venta na estrada Tem dois cavalos sem cavaleiro Que passam rente da invernada São dos condenados, Beto e Bruninho Sofrendo ainda por erro no caminho Afonso vinha descendo Com um facão de matança E nos olhos uma coisa Bem pior do que vingança Disse apenas bem baixinho Beatriz pediu reparo Quem invade casa alheia Vira adubo do amargaro E puxando um pano imundo Revelou com mórbido zelo O cadáver da falecida Costurado por cabelo Onofre então surgiu rindo Com enxadão cheio de lodo Trazia uns potes de barro E um rosário feito em couro Pelas paredes do antro Havia símbolo riscado E um fedor de carne azêda Misturado com queimado Dizem que lá em Carrancas Quando venta na estrada Tem dois cavalos sem cavaleiro Que passam rente da invernada São dos condenados, Beto e Bruninho Sofrendo ainda por erro no caminho Beto tentou dar facada Mas perdeu logo o sentido Viu Beatriz se erguendo torta Num vestido apodrecido Já Bruninho urrava alto Com as órbitas reviradas Vendo dedos carcomidos Lhe surgirem pelas omoplatas E na casa de Afonso Toda sexta de chuveiro Há gemido de dois homens Sob enxada de coveiro Eô eô eô Dizem que lá em Carrancas Quando venta na estrada Tem dois cavalos sem cavaleiro Que passam rente da invernada São dos condenados, Beto e Bruninho Sofrendo ainda por erro no caminho