Duas Caveiras

Duas Caveiras lyrics

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Na vala rasa, tarde baça, terra cedeu num estrondo antigo Caixa aberta, face incerta, dente exposto em sorriso inimigo Ela chegou meio desmontada, órbita funda, carne vencida Ele já estava meio osso, rindo da própria despedida Foi nesse quadro, cristãos e fardo, que um olhou o outro de lado E no vazio meio tardio algo brilhou desajustado Nem nome havia, nem memória, só uma espécie de atração Como se a morte, nessa sorte, errasse a própria negação Eram duas caveiras que se amavam E à meia-noite se encontravam E gargalhavam absortas do destino morto No campo frio onde ninguém vem Dois restos zumbis, num encontro corrosivo Fazendo pacto com o que já não tem E nesse enredo sem qualquer segredo O amor surgiu sem nenhuma sentença Num beijo pútrido de gosto áspero Que desmentia toda crença Ela falou com maxilar caído, frase falha, som meio oco Ele respondeu num estalo aflito, ironia em tom meio louco Disse que a vida foi um erro, disse que a morte foi pior Ela sorriu com dente exposto, disse que esperava algo melhor E ali ficaram, entre mármore gasto e cruz caída esquecida Fazendo piada da carne que um dia fingiu ser vida Verme passando virou assunto, tempo correndo como na roça E no grotesco daquele resto nasceu ternura disforme e grossa Eram duas caveiras que se amavam E à meia-noite se encontravam E gargalhavam absortas do destino morto No campo frio onde ninguém vem Dois restos zumbis, num encontro corrosivo Fazendo pacto com o que já não tem E nesse enredo sem qualquer segredo O amor surgiu sem nenhuma sentença Num beijo pútrido de gosto áspero Que desmentia toda crença Ela contou de um quarto estreito, cheiro antigo de desalento Ele falou de um bar sem nome, luz cansada, lento tormento Cada memória vinha podre, cheia de falha e contradição E quanto mais se desfazia, mais crescia a ligação Um braço solto virou carinho, uma rótula virou consolo E naquele estado tardio ninguém queria mais retorno Porque ali, onde tudo acaba, algo começou deformado Um sentimento sem promessa, sujo, torto, desajustado Eram duas caveiras que se amavam E à meia noite se encontravam E gargalhavam absortas do destino morto No campo frio onde ninguém vem Dois restos zumbis, num encontro corrosivo Fazendo pacto com o que já não tem E nesse enredo sem qualquer segredo O amor surgiu sem nenhuma sentença Num beijo pútrido de gosto áspero Que desmentia toda crença Vieram necropsados numa noite fria, vela acesa, pranto ensaiado Pisaram forte sobre as covas, mundo antigo reencenado Ela sentiu leve desprezo, ele soltou um encanto vil Disse que os vivos são mais mortos que qualquer corpo febril Quando fecharam as caixas gastas, cada um no seu caixão Trocaram um olhar vazio, pacto mudo sem razão E desde então, sob pedra e lama, cresce um afeto impronunciável Feito de ausência, feito de falha, feito de algo inaceitável Eram duas caveiras que se amavam E à meia noite se encontravam E gargalhavam absortas do destino morto No campo frio onde ninguém vem Dois restos zumbis, num encontro corrosivo Fazendo pacto com o que já não tem E nesse enredo sem qualquer segredo O amor surgiu sem nenhuma sentença Num beijo pútrido de gosto áspero Que desmentia toda crença