Ao Redor do Expediente

Ao Redor do Expediente lyrics

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Há um trabalho anterior ao trabalho Sem contrato, registro ou patrão Nele se consome a parcela mais nobre Da invisível e valiosa duração Ainda existe noite sobre os telhados Uma porta se fecha sem testemunhar A mesa conserva o café intocado A casa aprende, outra vez, a esperar No quarto, um menino prossegue no sonho O pai já pertence ao primeiro trem Há homens que sabem o gosto da alvorada Mas nunca descobriram as luzes que ela tem O ônibus transporta uma pátria dispersa Feita de rostos sem qualquer distinção Cada parada recolhe uma infância E toda partida prolonga a separação O vidro devolve um semblante cansado Que já não pergunta por onde passou A cidade vai aproximando edifícios Mas aumenta a distância de quem cedo acordou Há um trabalho anterior ao trabalho Sem contrato, registro ou patrão Nele se consome a parcela mais nobre Da invisível e valiosa duração O salário diz recompensar o ofício Jamais restitui todo um dia Existe um caminho maior que a cidade A distância entre um homem e sua maior alegria Ao meio-dia, a casa permanece Fiel ao silêncio dos móveis habituais Uma bola esquecida junto ao alpendre Conhece o menino mais do que os pais Quando a tarde principia seu declínio Ainda faltam bairros por vencer Há regressos que chegam à porta Sem conseguir verdadeiramente volver Construíram viadutos sobre os vales Esticaram avenidas até o horizonte Nenhuma obra aproximou os pais Da infância deixada além da primeira ponte Talvez a pobreza mais extrema Não resida na escassez do pão Resida na vida entregue aos percursos Antes mesmo da ocupação Há um trabalho anterior ao trabalho Que ninguém aprendeu a contar Quando o expediente enfim se inaugura O melhor do dia acabou de acabar Veja bem, a maior riqueza da vida Não é fortuna, prestígio ou poder Mas chegar à própria casa Antes que todo o dia deixe de acontecer