Kraken

Songtext von Kraken

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Antes do mar ter sal, havia um escuro aguado Um sem-fundo sem lembrança, um antigamente encostado E nesse breu de não-horas, onde nem Deus se sabia Foi se mexendo um vivente de friagem e maresia Não nasceu de mãe nenhuma, nem de ova, nem barrigame Veio dum engano antigo entre correnteza e enxame O oceano sonhou delírio, desses delírios de alumbramento E o Kraken foi rebentando do próprio esquecimento Primeiro era só tentame, braço mole, escuridão Uma vontade sem nome remexendo aquele fundão Depois ganhou olhos grandiosos, mais velhos que pescador Olhos de quem já viu mundos apodrecerem sem dor Imenso Kraken, mar dos marujos, pai da funda escuridão Quem foi que te pôs tristeza nesse antigo coração? Teu corpo é noite sem termo nas águas do nunca-mais E teus olhos guardam horrores anteriôres aos ancestrais Os peixes lhe davam rumo, baleias guardavam distância Havia nele um comando parecido com ignorância Porque saber demais pesa, e o Kraken sabia o frio De antes do primeiro astro aprender o seu feitio Subiu por eras e eras, creceu de engolir tormenta Navios eram sementes na sua fome sedenta Quando emergia, o oceano ficava cheio de idade Igual um velho recordando pecados da humanidade Homens contavam histórias nas tavernas dos portos Que o bicho guardava nomes dos afogados e mortos Que seus tentáculos eram estradas de maldição E havia igrejas afundadas presas no seu coração Mas o Kraken, no sozinho dos abissais sem campina Não tinha gôsto de ódio nem gana assassina Matava igual tempestade, sem alegria ou castigo Pois bicho grande carrega outro jeito de perigo Imenso Kraken, mar dos marujos, pai da funda escuridão Quem foi que te pôs tristeza nesse antigo coração? Teu corpo é noite sem termo nas águas do nunca-mais E teus olhos guardam horrores anteriôres aos ancestrais Vieram depois os homens com bronze, pólvora e mapa Medindo tudo que existe com soberba que escapa Queriam matar o monstro pra provar supremacia Como menino que quebra o que não compreendia Foram navios de guerra cortando neblina e sal Arpões do tamanho do pavor, bombas de aço e metal O Kraken subiu cansado, sem o furor das marés Feito um rei muito antigo perdendo o chão dos pés Dizem que a batalha durou sete luas adoecidas O mar expeliu cadáveres e espumas enfurecidas E quando o último arpão entrou no seu corpo profundo Houve um silêncio tão grande que pareceu parar o mundo O Kraken afundou lento, sem urro, sem maldição Só levando para o escuro sua vasta solidão E as águas se fecharam por cima da criatura Como terra cobrindo nome gasto de sepultura Imenso Kraken, mar dos marujos, pai da funda escuridão Quem foi que te pôs tristeza nesse antigo coração? Teu corpo é noite sem termo nas águas do nunca-mais E teus olhos guardam horrores anteriôres aos ancestrais Há pescadores que juram em noites de mar parado Quando o céu fica de chumbo e o horizonte adoentado Há um rumor nos precipícios, um resfolegar sem termo Feito um Deus desaprendido despertando do ermo E dizem que o Kraken dorme nos porões da amplidão Com algas cobrindo os olhos e fúria no coração Porque certas criaturas não recebem fim inteiro Ficam sonhando nos abismos do primeiro nevoeiro Imenso Kraken, mar dos marujos, pai da funda escuridão Quem foi que te pôs tristeza nesse antigo coração? Teu corpo é noite sem termo nas águas do nunca-mais E teus olhos guardam horrores anteriôres aos ancestrais